
O escorpião
aproximou-se do sapo que estava à beira do rio. Como não sabia nadar, pediu uma
carona para chegar à outra margem.

Desconfiado, o sapo respondeu: “Ora, escorpião, só se
eu fosse tolo demais! Você é traiçoeiro, vai me picar, soltar o seu veneno e eu
vou morrer.”

Mesmo assim
o escorpião insistiu, com o argumento lógico de que se picasse o sapo ambos
morreriam. Com promessas de que poderia ficar tranquilo, o sapo cedeu, acomodou
o escorpião em suas costas e começou a nadar.

Ao fim da travessia, o escorpião cravou o seu ferrão
mortal no sapo e saltou ileso em terra firme.

Atingido pelo veneno e já começando a afundar, o sapo
desesperado quis saber o porquê de tamanha crueldade. E o escorpião respondeu
friamente:

— Porque
essa é a minha natureza!

Vez por outra, essa fábula surge em minha mente, seja
no cotidiano profissional ou através do acompanhamento das notícias diárias,
pelos jornais e TV. Trata-se de uma história arquetípica, que ilustra
exemplarmente a natureza das pessoas que serão analisadas e descritas, ao longo
deste livro.

A ideia de
escrever sobre
psicopatas surgiu em razão do momento violento, desumano
e marcado por escândalos que nos abatem, mas também serve como um alerta aos
desprevenidos quanto à ação destruidora desses indivíduos. Devo admitir minha
ousadia, mas não pude resistir às inúmeras solicitações dos meus leitores,
pacientes, conhecidos e amigos.

Quando pensamos em psicopatia, logo nos vem à mente um
sujeito com cara de mau, truculento, de aparência descuidada, pinta de assassino
e desvios comportamentais tão óbvios que poderíamos reconhecê-lo sem pestanejar.
Isso é um grande equívoco!

Para os desavisados, reconhecê-los não é uma tarefa tão
fácil quanto se imagina. Os psicopatas enganam e representam muitíssimo bem!
Seus talentos teatrais e seu poder de convencimento são tão impressionantes que
chegam a usar as pessoas com a única intenção de atingir seus sórdidos
objetivos. Tudo isso sem qualquer aviso prévio, em grande estilo, doa a quem
doer.

Mas quem são essas
criaturas tão nocivas? São pessoas loucas ou perturbadas? O que fazem, o que
sentem? Como e onde vivem? Todos são assassinos?

Este livro discorre sobre pessoas frias, insensíveis,
manipuladoras, perversas, transgressoras de regras sociais, impiedosas, imorais,
sem consciência e desprovidas de sentimento de compaixão, culpa ou remorso.
Esses “predadores sociais” com aparência humana estão por aí, misturados
conosco, incógnitos, infiltrados em todos os setores sociais. São homens,
mulheres, de qualquer raça, credo ou nível social. Trabalham, estudam, fazem
carreiras, se casam, têm filhos, mas definitivamente não são como a maioria das
pessoas: aquelas a quem chamaríamos de “pessoas do bem”.

Em casos extremos, os psicopatas matam a
sangue-frio, com requintes de crueldade, sem medo e sem arrependimento. Porém, o
que a sociedade desconhece é que os psicopatas, em sua grande maioria, não são
assassinos e vivem como se fossem pessoas comuns.

Eles podem arruinar empresas e famílias, provocar
intrigas, destruir sonhos, mas não matam. E, exatamente por isso, permanecem por
muito tempo ou até uma vida inteira sem serem descobertos ou diagnosticados. Por
serem charmosos, eloquentes, “inteligentes”, envolventes e sedutores, não
costumam levantar a menor suspeita de quem realmente são. Podemos encontrá-los
disfarçados de religiosos, bons políticos, bons amantes, bons amigos. Visam
apenas o benefício próprio, almejam o poder e o status, engordam ilicitamente
suas contas bancárias, são mentirosos contumazes, parasitas, chefes tiranos,
pedófilos, líderes natos da maldade.

A realidade é contundente e cruel, entretanto, o mais
impactante é que a maioria esmagadora está do lado de fora das grades,
convivendo diariamente com todos nós. Transitam tranquilamente pelas ruas,
cruzam nossos caminhos, frequentam as mesmas festas, dividem o mesmo teto,
dormem na mesma cama...

Apesar de mais de vinte anos de profissão, ainda fico
muito surpresa e sensibilizada com a quantidade de pacientes que me procuram com
suas vidas arruinadas, totalmente em frangalhos, alvejadas por esses “seres
bípedes” que sugam o nosso sangue e vampirizam a nossa alma.

É importante ressaltar que os
psicopatas possuem níveis variados de gravidade: leve, moderado e grave. Os
primeiros se dedicam a trapacear, aplicar golpes e pequenos roubos, mas
provavelmente não “sujarão as mãos de sangue” ou matarão suas vítimas. Já os
últimos, botam verdadeiramente a “mão na massa”, com métodos cruéis
sofisticados, e sentem um enorme prazer com seus atos brutais. Mas não se iluda!
Qualquer que seja o grau de gravidade, todos, invariavelmente, deixam marcas de
destruição por onde passam, sem piedade.

Além de psicopatas, eles também recebem as denominações
de sociopatas, personalidades antissociais, personalidades psicopáticas,
personalidades dissociais, personalidades amorais, entre outras. Embora alguns
estudiosos prefiram diferenciá-los, no meu entendimento esses termos se
equivalem e descrevem o mesmo perfil. No entanto, por uma questão de foro íntimo
e visando facilitar a compreensão, o termo
psicopata será o utilizado
neste livro.

A parte
racional ou cognitiva dos psicopatas é perfeita e íntegra, por isso sabem
perfeitamente o que estão fazendo. Quanto aos sentimentos, porém, são
absolutamente deficitários, pobres, ausentes de afeto e de profundidade
emocional. Assim, concordo plenamente quando alguns autores dizem, de forma
metafórica, que os psicopatas entendem a letra de uma canção, mas são incapazes
de compreender a melodia.

Com base nessa premissa, optei por não inserir trechos
de letras de canções brasileiras na abertura dos capítulos, recurso narrativo
que costumo adotar em minhas obras. Música é emoção, sentida com a alma. Entendo
que repetir a mesma fórmula ao descrever o comportamento de criaturas
desprovidas de afetividade seria, no mínimo, um contrassenso.

Aqui não me proponho, sob qualquer
hipótese, a oferecer ajuda terapêutica aos indivíduos com esse perfil. Ao
contrário, o meu objetivo é informar o público em geral, para que fique de olhos
e ouvidos bem abertos, despertos e prevenidos. Suas vítimas prediletas são as
pessoas mais sensíveis, mais puras de alma e de coração...

Também tenho como propósito expor parâmetros
para que possamos avaliar, em que escala, cada um de nós está contribuindo para
promover uma cultura social na qual a psicopatia encontra um terreno fértil para
prosperar.

Esta obra
contém histórias reais que me foram relatadas por vítimas de psicopatas, direta
ou indiretamente, e casos tratados com destaque na imprensa. Não estou afirmando
que os exemplos aqui citados representam autênticos psicopatas, e sim que
ilustram de forma bastante didática comportamentos que um psicopata típico
teria. Além disso, todos os casos apresentados se prestam muito bem à
exemplificação dos mais diversos níveis de psicopatia, desde os mais leves até
os moderados e severos.

Dessa forma, tentei esquadrinhar e tornar o tema o mais
abrangente possível, a fim de responder a uma série de perguntas que, na maioria
das vezes, nos deixa absolutamente confusos. Assim espero contribuir para que as
pessoas se previnam das ameaças que nos rondam de forma silenciosa. Estou
convencida de que falhas em nossas organizações familiares, educacionais e
sociais são dados importantes e merecem estudos aprofundados e toda a nossa
atenção, mas por si só não são suficientes para explicar o fenômeno da
psicopatia.

A natureza
dos psicopatas é devastadora, assustadora, e, aos poucos, a ciência começa a se
aprofundar e a compreender aquilo que contradiz a própria natureza
humana.

O conteúdo aqui
exposto é denso e intrigante. As páginas percorrem as mentes sombrias de
criaturas cujas vidas parecem não ter se desenvolvido totalmente. Saber
identificá-las pode ser um antídoto (talvez o único) contra seu veneno
paralisante e mortal. Infelizmente a desinformação nos torna vulneráveis,
indefesos como “sapos tolos”, fisgados pelas habilidades camaleônicas dos
“escorpiões”.

Prepare-se, porque certamente você conhece, já ouviu
falar ou convive com um deles.